A balconista, de Steve Martin

Conhecemos Steve Martin (1945) o ator, mas poucos sabemos ou lembramos de seus dotes de escritor. A balconista (Shopgirl, 144 páginas, Editora Record), lançado lá fora em 2000 e aqui dois anos depois, é um livro que desejava ler faz tempo, desde que assisti ao filme A garota da vitrine (Shopgirl, 2005), dirigido por Anand Tucker, com o próprio Martin como Ray Porter.

Já no início da leitura pude senti a tristeza narrada no presente. Mirabelle é uma jovem de 28 anos que mora sozinha e tem depressão, às vezes muito presente.

“O Serzone é um presente de Deus que a impede de ser imobilizada pela depressão, que de outra forma a envolveria completamente para penetrar em seu corpo como uma névoa venenosa.”

A história é assim, caminha a passos lentos, junto com a protagonista, em sua apatia. Ela tem poucos amigos, que por vezes não percebem que Mirabelle se sente ferida quando não aparecem num encontro sem nem avisá-la, e ela está lá, a espera pelos poucos convites para a diversão, solitária. Triste.

“Mirabelle substitui seus amigos ausentes pelos livros e pelos seriados de TV. Os livros, quase todos, são romances do século XIX, em que mulheres ou são envenenadas ou envenenam alguém.”

Mirabelle trabalha no ermo setor de luvas de uma grande loja, a Neiman’s. Lá ela não faz muito. Na verdade, não tem o que fazer. Há poucos interessados em luvas. Até que um dia aparece um elegante homem de uns 50 anos chamado Ray Porter.

Às vezes ela sai com um cara esquisito, o Jeremy, daqueles que deve ser apenas por comodismo ou medo de conhecer alguém. Eles se conheceram numa lavanderia. Mas quando Ray Porter surge em sua vida, Mirabelle sente que há possibilidades de mudança, apesar dos avisos dele de que não são exclusivos um do outro. Ele a convida para jantar.

Consegui me colocar no lugar da personagem, em seu estado quase letárgico. Parece que caminhei assim, quase parando, imaginando todos os momentos tristes, os amigos que não a respeitam, o trabalho horrível…

Martin soube trazer um perfil um tanto sombrio que a vida possui, de pessoas fracas e fortes – e nos perguntamos quem é quem -, das que tentam ajudar, mas machucam as outras sem perceber, e transformar num livro que me prendeu o tempo todo.

“Lembre-se apenas, meu bem, que é a dor que muda as nossas vidas.”

Heidi Gisele Borges

É revisora, autora dos livros juvenis "O menino que perdeu a magia" e "Um segredo de Natal", pela Editora Estronho, e de diversos contos de horror, tudo sob o nome Celly Borges. Gosta de ler sobre a II Guerra Mundial, de colecionar livros e falar sobre eles. Gosta de costurar nas horas vagas. É mãe do gato Anakin.

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