A mulher de preto, de Susan Hill

A mulher de preto é um desses livros que envolvem e que caminham lentamente, sem o exagero das histórias que querem assustar por assustar. Aliás, esse clima de suspense poucos conseguem hoje e que era comum no passado.

O livro é narrado por Arthur Kipps, na verdade ele escreve porque se sentiu impelido a contar tudo o que o atormenta há muito tempo. Esse segredo horrível que guarda só para si e que o consome todos os dias desde sua juventude.

Começa quando Kipps, advogado, vislumbra uma possível promoção ao ser enviado para tratar dos documentos da senhora Alice Drablow, que acabara de morrer. No entanto, quando chega à cidade e comenta o motivo de sua visita, todos parecem se sentir incomodados. E ninguém deseja falar sobre o assunto. Muito menos da mulher de preto.

Kipps se vê sozinho ali. Somente conta com ajuda para ir e voltar da Casa do Brejo da Enguia, com sua atmosfera lúgubre, o lugar que todos evitam.

O jovem então, como é comum dos mocinhos, pensa que tudo não passa de crendice popular e decide desvendar o motivo de tanto medo no povoado. No entanto, a mente humana nunca está preparada para o surreal.

“Mas devo confessar que naquela época eu tinha o senso de superioridade dos londrinos, a crença malformada de que os homens do campo, e particularmente aqueles dos cantos remotos de nossa ilha, eram mais supersticiosos, mais crédulos, mais lerdos, menos sofisticados e mais primitivos do que nós, cosmopolitas.”

A mulher de preto (The woman in black, Editora Record, 208 páginas) foi um desses livros que me chamaram, pois eu não tinha intenção em ler tão logo. Algo me afastava dele, talvez o receio de uma história de fantasmas feita apenas para assustar. Mas, um dia, procurando uma leitura um pouco mais sombria, a obra pediu para ser lida (através do programa Kindle Unlimited, da Amazon). Foi uma surpresa incrível, ainda mais por saber que é de 1983 e nunca tinha ouvido falar do livro. Provavelmente seu sucesso aqui se deve ao filme homônimo lançado em 2012, com Daniel Radcliffe – o eterno Harry Potter – como Arthur Kipps, dirigido por James Watkins.

E fico feliz por ter lido antes de ter assistido, pois o filme é bem inferior, muda muita coisa da história.

Há uma segunda parte escrita em 2013 pelo autor Martyn Waites, que também virou filme, A mulher de preto 2 – Anjo da Morte (Woman in black: Angel of Death, Editora Record, 304 páginas). A minha curiosidade diminui muito quando uma pessoa continua a história de outra. Ainda estou em dúvida, apesar de ter lido resenhas positivas.

Bem, o único problema que encontrei durante a leitura de A mulher de preto foi “recolocou-os novamente”, “pequena saleta”, erros básicos que me incomodaram bastante.

Essas histórias, como a de A mulher de preto, são um tanto raras hoje. Muitos autores (de livros e filmes) desejam o susto imediato, o medo intenso e em tempo integral. Nada que chega devagar e se aloja sem que o espectador perceba logo, que não o faça dormir por dias, pensado em: será que vemos tudo o que está ao nosso redor? Será que conseguimos bloquear o que transcende aquilo que conhecemos como realidade? O que nos espreita quando fechamos os olhos para dormir?

Susan Hill (1942), uma apaixonada por livros de terror, conseguiu criar uma ótima história de fantasmas como as clássicas, do absurdo que povoa nossa mente, e nos faz olhar duas vezes para os lados antes de dormir e querer cobrir os pés, pois parece que tudo está ali, olhando num canto sombrio do quarto.

Heidi Gisele Borges

É revisora, autora dos livros juvenis "O menino que perdeu a magia" e "Um segredo de Natal", pela Editora Estronho, e de diversos contos de horror, tudo sob o nome Celly Borges. Gosta de ler sobre a II Guerra Mundial, de colecionar livros e falar sobre eles. Gosta de costurar nas horas vagas. É mãe do gato Anakin.

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