Resenha: Amon, meu avô teria me executado, de Jennifer Teege e Nikola Sellmair

Imagina descobrir por acaso que seu avô era um dos maiores assassinos do Holocausto?

E que você, sendo negra, sabe que ele a teria matado também?

Essa é a história de Jennifer Teege que foi mandada para a adoção ainda bebê, mas conviveu um pouco com sua mãe e avó para se lembrar delas. Jennifer, inclusive, antes de ser adotada carregava o sobrenome do avô.

Teege faz uma grande pesquisa sobre a vida de sua família biológica depois de encontrar um livro que conta a história de sua mãe, Monika Göth, Sou obrigada a amar o meu pai, ou não? Dá pra sentir sua tristeza e o seu desespero por não saber nada sobre o seu passado e descobri-lo ao acaso, numa prateleira de uma biblioteca de Hamburgo, aos 38 anos.

Ao descobrir o livro, Jennifer passa a chamar seus pais adotivos pelos seus nomes. Eles não são más pessoas e esse tratamento talvez os tenha deixado tristes. Parece que ela não aceita muito bem a família, pois a todo momento fala que seus irmãos e pais são adotivos. E depois de reencontrar Monika, diz: agora eu tenho uma mãe.

Estou feliz com o próximo encontro com a minha mãe […] Minha família; soa autêntico quando uso essa expressão.

O texto é dividido em duas partes: uma que conta a visão de Jennifer de tudo o que ela passou e a outra o do jornalista Nikola Sellmair, que entrevistou família e amigos e aprofunda um pouco mais a história de Göth.

Amon Göth foi retratado no filme A lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), dirigido por Steven Spielberg, com Liam Neeson no papel de Oskar Schindler e Ralph Fiennes como Göth. O filme foi inspirado no livro A lista de Schindler (Schindler’s List, 1982), de Thomas Keneally.

Mietek Pemper, judeu, que fora secretário de Göth, e foi consultor do filme de Spielberg, escreveu o livro A lista de Schindler: a verdadeira história.

Pemper foi a única testemunha que poderia dar uma visão completa e precisa da operação de Schindler. Seu livro é cuidadoso e triste, contando o triunfo de ambos e da incapacidade de superar a dor.

Ruth Irene, avó de Jennifer, tenta justificar ou se enganar quanto às mortes causadas pelo marido. O amor realmente deixa a pessoa cega até mesmo para atrocidades?

Dizer que não sabia o que acontecia enquanto morava lá e se contradizer ao falar que não via crianças e depois contar à filha que viu um caminhão com crianças saindo do campo de concentração de Plaszow, na Polônia, em 1944, não é da mesma forma um crime?

Saber e não tentar evitar. Saber e continuar com o monstro. Seria medo ou amor cego?

Talvez também havia conformismo e comodismo…

Helen Rosenzweig, empregada dos Göth, tinha uma opinião sobre o patrão e o melhor amigo dele:

Amon Göth e Oskar Schindler: os dois tinham poder, um o usou para matar, o outro para salvar pessoas. Esse exemplo mostra que todos nós temos escolha.

Já é difícil acreditar que a maioria do povo não sabia o que acontecia com judeus, ciganos… É mais difícil aceitar que quem vivia lá dentro dos campos não sabia! É algo tão complicado e obscuro de aceitar. O que seriam aquelas pessoas desnutridas e sendo escravizadas e maltratadas o tempo todo?

Ruth Irene conta que via seu marido atirar nas pessoas da varanda de seu quarto. Quem aceita isso? Quem acredita que isso é perfeitamente normal?

Amon Göth, acusado de fazer parte do partido nazista e por ter ordenado o assassinato de milhares de vidas, foi condenado à morte por crimes contra a humanidade, e no cadafalso, que precisou ser ajustado, pois ele era muito alto, fez a conhecida reverência, Heil, Hitler!

E até o fim de sua vida Ruth Irene o defendeu. Ela cometeu suicídio em 1983.

Durante a leitura eu queria ter estado lá para segurar a mão de Jennifer. Ela precisou suportar toda essa descoberta infeliz. Mesmo dividindo com o marido, parte da família adotiva e alguns amigos o peso era todo dela. Não tem como medir esse sentimento e pensar que seria diferente, como se a culpa fosse só dele e não da família. Acontece que Jennifer é negra e era contra negros também que seu avô lutava.

Em Amon – Meu avô teria me executado (Amon. Mein Grossvater hätte mich erschossen, Editora Agir, 2014), faltaram as fotos que Jennifer tanto recorda e cita. Seria muito interessante vê-la com seus irmãos quando crianças. Seria ótimo poder olhar e analisar aquela avó que ela tanto gostava.

Uma das frases mais fortes do livro foi:

Como todas as crianças que foram abandonadas, carrego um trauma: a sensação de insignificância.

E hoje vivemos o tempo em que as pessoas são descartáveis e os sentimentos egoístas.

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Resenha publicada na coluna Beco do Nunca do Jornal Em Foco, Brusque, SC.

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