Dez mil – autobiografia de um livro, de Andrea Kerbaker

A visão do Livro.

Isso mesmo, ao ler, acompanhamos a história pelos olhos de certo volume – não temos a informação de qual é exatamente seu título e autor, mas fica ali, perto de Hemingway – e suas frustrações de não ser escolhido pelos leitores, de permanecer por muito tempo abandonado na prateleira. Alguns leitores passam próximos à sua estante, outros o tiram de lá, mas às vezes o devolvem.

“Estava tão satisfeito em ter o meu espaço no centro da cidade. Numa loja onde os donos e os vendedores leem você, conhecem os segredos guardados.”

Hoje isso é meio raro, poucas vezes encontramos em livrarias atendentes leitores. Eu mesma já trabalhei em uma livraria em que os atendentes não tinham o hábito da leitura. Muitos não conhecem nem mesmo os best-sellers do momento, imagina então os grandes clássicos?! Uma triste realidade de um Brasil que quase não lê.

As estatísticas apontam que o brasileiro lê uns poucos livros por ano, imaginemos então, quantos milhões de pessoas nem sequer têm o interesse em dedicar algumas horas a esse nobre prazer que é a leitura! E não coloquemos aqui as pessoas que não têm a possibilidade de ter livros, ou mesmo tempo.

A leitura não é para classes, ler é para quem tem interesse.

Reclama-se do valor do livro. Mas não há muitos que compram para mudar isso, ajudar diminuir o preço. Ou pensam que e-books podem ser baixados gratuitamente, sem lembrar que o autor perde com isso. Além disso, parece que somos pessoas horríveis quando dizemos que compramos e-books – já recebi olhares tortos por contar que comprei.

Não podemos comparar com Estados Unidos – sempre uma referência em tudo o que se faz aqui, infelizmente –, leitores e valores, onde ler é mais do que obrigação, desde sempre mostram às crianças a importância, em casa, na escola, universidade e assim vai. Por isso o preço é tão inferior aos daqui, há leitores.

Mas os dias passam em Dez mil, o Livro consegue algumas companhias e seu objetivo, ou seja, ser lido. Ele teve mais de um dono, mais de um leitor durante sua história. Porém, ainda assim poucos. Uma boa obra merece ser lida e divulgada, espalhada. Muitos têm aquele livro secreto, que quer guardar para si, e a maioria dos leitores querem gritar para todos encontrei um novo e incrível livro, leiam, leiam!, porém, quase sempre esse grito se faz frustrado. Há alguém ouvindo?

Deixar um livro abandonado na estante apenas para mostrar a possibilidade de um leitor que não o é, é fácil. Compremos uma enciclopédia e uma estante bonita para mostrar a todos nossa casa e/ou escritório intelectual, mas onde se encaixa o momento da leitura real? Tire o livro da estante e sente-se numa praça, na cama, ou em seu lugar favorito e leia, dê esse prazer a você e ao livro, ele existe, ele vive!

“O trauma da televisão é uma lembrança animadora. Se consegui superar uma coisa dessas, posso então enfrentar de cabeça erguida qualquer contagem regressiva. Que aliás, repito, ainda não é definitiva. Pois lutarei com todas as minhas forças para sobreviver.”

Dez mil – a autobiografia de um livro (Editora Rocco, 2003, 84 páginas) é simples, rápido, encanta e prende, mostra a tristeza de um livro abandonado e a alegria de um livro lido, uma obra que saiu da estante para existir, afinal, não é depois que o autor conta em papel sua história que ela passa a ser, na verdade ela só está viva se for lida. Um livro abandonado existe apenas para si, e isso é como a morte.

Heidi Gisele Borges

É revisora, autora dos livros juvenis "O menino que perdeu a magia" e "Um segredo de Natal", pela Editora Estronho, e de diversos contos de horror, tudo sob o nome Celly Borges. Gosta de ler sobre a II Guerra Mundial, de colecionar livros e falar sobre eles. Gosta de costurar nas horas vagas. É mãe do gato Anakin.

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