Guerra Ilustrada: a História através dos quadrinhos – Parte 2

Texto de Marcos Almeida*

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Primeiramente, peço desculpas pelo atraso excessivo para a coluna sair. Alguns motivos foram relevantes e outros nem tanto, mas que somados, postergaram a sua conclusão. O texto ficou muito longo e minha editora do site achou melhor dividi-lo em partes, para não ficar cansativo. Sendo assim, hoje sai a 1ª parte, com o review das HQs lidas com a temática Primeira Guerra Mundial. Os da Segunda Guerra Mundial sairão em breve, divididos em três ou quatro partes. Espero que gostem!

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Resenhar livros de Guerra é complicado, pois pode-se cair no lugar comum de criticar demais um lado e endeusar demais o outro. O escritor inglês George Orwell já dizia que “A História é escrita pelos vencedores”, então é natural que tenhamos um maior conhecimento sobre os acontecimentos das Grandes Guerras Mundiais pelo ponto de vista da Tríplice Entente (I Guerra Mundial) ou dos países Aliados (II Guerra Mundial).

Para não incorrer neste erro, deve-se buscar um número variado de fontes a fim de conhecer melhor os episódios mais memoráveis desses conflitos. No entanto, ainda que se aprecie uma ampla variedade, a qualidade daquilo que se lê é primordial, uma vez que vem crescendo o perigoso movimento do revisionismo histórico, mudando fatos dados como comprovados sem exibir as provas dessas modificações.

E não seria diferente resenhar HQs e mangás relacionadas ao tema. Hoje há uma ampla variedade no mercado editorial – eu mesmo me surpreendi com a quantidade de exemplares que já possuía e com outros que adquiri para este projeto. E enquanto há quadrinistas que fizeram a “lição de casa” e pesquisaram a fundo ou mesmo aqueles que vivenciaram os fatos por eles narrados, outros deixaram a desejar.

A primeira HQ lida para o projeto foi Ás Inimigo, Um Poema de Guerra, de George Pratt (Abril Jovem, 1995, 126 páginas). A tradução brasileira é antiga, datada de 1995, então não é tão fácil encontrá-la, devendo-se vasculhar sebos físicos e online. Logo de cara o visual da HQ impressiona com suas pinturas – as aquarelas são muito bonitas e detalhadas, embora tenha achado algumas com um visual “sujo” que demorei a compreender. É provável que tenha sido uma escolha do autor, visto que estamos falando de imagens representativas de embates durante uma guerra.

A história inicialmente trata das memórias do piloto alemão Hans von Hammer, que combateu na Primeira Guerra Mundial e está sendo entrevistado por um jornalista inglês, Edward Mannock. No decorrer da história descobrimos que Mannock é também um veterano de Guerra, mas do Vietnã, e ambos falam dos horrores que vivenciaram e das escolhas que fizeram. Uma das mais belas passagens da HQ me remeteu ao episódio real retratado no filme “Feliz Natal”, de 2005, em que soldados franceses, alemães e escoceses fizeram uma trégua e confraternizam para celebrar o Natal em dezembro de 1914.

ÁS Inimigo é recheada de frases de efeito e algumas citações bem interessantes, como a atribuída a Adolf Hitler: “Mas é para isso que servem os jovens”.

Era a Guerra de Trincheiras, de Jacques Tardi (Editora Nemo, 2011, 128 páginas), traz uma sucessão de situações não cronológicas que se passam durante a Primeira Guerra Mundial. Nos dizeres do próprio autor, “não há ‘herói’, não há ‘personagem principal’ nesta ‘aventura’ coletiva lamentável que é a guerra. Não há nada além de um grito gigantesco de agonia”.

Fascinado pelo tema por conta das histórias de seu avô, veterano da Grande Guerra, Tardi mostra o ponto de vista francês do conflito. Ele comenta em um dos textos sobre uma passagem que teria acontecido com o avô no front de guerra, que levava comida para soldados numa trincheira e teria passado uma noite inteira deitado com as mãos dentro de um cadáver após cair durante disparos inimigos. Essa cena, inclusive, serviu de base para uma das histórias e é bastante representativa dos horrores que afligem os soldados, que conviviam diariamente com corpos em decomposição, infestação de ratos e piolhos, dejetos humanos e seus odores.

No decorrer da HQ somos apresentados a uma série de personagens que, embora nomeados, poderiam ser qualquer um. Temos Binet, um soldado de 2º classe amargurado e indiferente, os soldados Lafont e Jean Desbois, o caçador de ratos Gaspard. Com o soldado Huet acompanhamos o episódio lamentável em que soldados alemães usavam mulheres e crianças como escudo, e como isso, às vezes, não importava aos soldados aliados. E embora saibamos de antemão o fim da maioria dos soldados, impossível não ficar triste com o destino de Mazure.

Os traços das artes em preto e braço de Tardi combinam perfeitamente com o tom melancólico da obra. Tem-se assim um panorama que mostra não apenas o sofrimento físico, mas também psicológico dos soldados – automutilações, as vezes seguidas de amputações, eram comuns para incorrerem em dispensas e conseguir assim, fugir do combate.

A HQ termina com uma excelente filmografia e bibliografia, indispensáveis para qualquer fã do gênero, e que serviu de pesquisa para Tardi recriar com maestria a vida nas trincheiras.

Em Guerra 1914-1918, de Julius Ckvalheiyro (Quadro a Quadro, 2014, 144 páginas), tem-se seis histórias complementadas por textos que contextualizam os acontecimentos retratados nos quadrinhos.

Embora eu particularmente tenha gostado dos textos por incrementarem a apreciação da obra, discordo do Lillo Parra que assina a apresentação e que afirma que os textos explicativos “não apresentam um entrave a leitura dos quadrinhos”. Acredito que isso possa sim afastar um leitor aventureiro, que busca apenas quadrinhos e seus balões, pois o excesso de textos quebra o ritmo de leitura de uma HQ.

O destaque fica com a história do “Barão Vermelho”, Manfred von Richthofen, considerado o maior piloto de combate de todos os tempos, tendo abatido 80 aviões inimigos.

Confesso que esperava mais da obra. Algumas das histórias tentam soar poéticas, com palavras ou frases jogadas no meio dos desenhos, mas não conseguiram fomentar qualquer sentimento em minha pessoa. Um exemplo é a história que conta um pouco sobre o genocídio armênio, um massacre que vitimou 1,5 milhão de pessoas – não há um roteiro elaborado, apenas frases soltas e muito texto em quadros laterais.

Dossiê de Guerra: Genocídio Armênio, também de Julius Ckvalheiyro (Cactus ArtEstudio, 2017, 52 páginas) traz o tema visto anteriormente em uma das histórias de “Guerra 1914-1918” e que acreditava que seria apresentado de forma mais abrangente e detalhada.

Contudo, o texto é o mesmo da obra interior. O que muda é que se tem mais imagens, com melhor distribuição do textos e coloração ligeiramente diferenciada, mais clara, o que torna alguns dos desenhos mais nítidos. A HQ conta com algumas imagens extras ao fim, ilustrando o processo criativo do autor.

Com The Great War, de Joe Sacco (W. W. Norton, 2013, 54 páginas – não traduzido), temos uma obra prima que retrata a loucura do 1º dia da Batalhe de Somme durante a Primeira Guerra Mundial.

Em edição luxuosa, Sacco retrata os acontecimentos daquele 1º de julho de 1916 em 24 extraordinários panoramas – o livro em sim consiste num imenso painel ilustrando o cenário do conflito.  Conta ainda com um livreto de 16 páginas escrito pelo jornalista Adam Hochschild, que retrata os desdobramentos desde os meses anteriores a batalha até o seu término.

Para montar os panoramas o autor recorreu aos arquivos de fotos do Museu Imperial da Guerra em Londres e ao historiador Julian Putkowski.

É interessante notar que se pode fazer dois tipos de leitura: uma guiada, utilizando-se o livreto que acompanha a obra e que traz algumas informações e curiosidades sobre cada cenário ou apenas apreciar os panoramas e tentar tirar suas próprias conclusões, podendo depois fazer um estudo comparativo. Optei pela leitura guiada.

Travada na região do Rio Somme, norte da França, entre 1º de julho e 18 de novembro de 1916, a Batalha de Somme trouxe uma ofensiva anglo-francesa ante a linha de defesa alemã, entrincheirados em posição de vantagem no terreno, o que fez elevar o número de baixas, especialmente no 1º dia, retratado por Sacco nesta edição.

Após bombardearem incessantemente as forças alemães por uma semana, dez grandes minas foram detonadas abaixo das trincheiras inimigas na manhã do dia 1º de julho. Confiantes no êxito da ofensiva, às 7h30 da manhã iniciaram-se as sucessivas ondas de tropas. Descobriram, tardiamente, que vários cinturões de arame farpado e as bases com metralhadoras alemãs continuavam praticamente intactas…quando se deu o massacre!

Dos 120 mil soldados ingleses envolvidos no 1º dia, mais de 57 mil foram feridos ou mortos – 30 mil apenas na 1ª hora. O número de fatalidades desse fatídico dia varia de 19 a 21 mil, uma vez que muitos morreram nos hospitais dias depois.

Nos primeiros panoramas vemos os preparativos para a batalha, com o armazenamento de munições, os bombardeamentos e o deslocamento das tropas, que em Somme, era formado em sua maior parte de voluntários. Nos panoramas seguintes temos as tropas britânicas sendo massacradas pela artilharia alemã, com os mortos sendo jogados para fora das trincheiras (para, talvez, serem recolhidos a noite) e os feridos aumentarem cada vez mais em número, sendo levados para os postos ou hospitais.

Impressiona o nível de detalhes dos desenhos de Sacco, desde o fardamento e expressões dos soldados até os incontáveis cadáveres e feridos espalhados pelas trincheiras na linha de frente. Aqui vale a pena apreciar cada panorama demoradamente, dado a grande quantidade de informações visuais em cada um deles.

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Na próxima coluna trarei o review de outras obras, mas da Segunda Guerra Mundial.

Leia a primeira parte de Guerra Ilustrada – a História através dos quadrinhos

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* Texto escrito por Marcos Almeida. Ele é natural de São Luís do Maranhão, já passou dos 30 e tem dupla formação acadêmica (Direito e Publicidade e Propaganda). Dedica o tempo livre aos livros, filmes, seriados, música e a “não fazer nada” – função em que é especialista -, mas, às vezes, quando isso enjoa, ele gosta de falar e escrever sobre assuntos aleatórios.

Heidi Gisele Borges

É revisora, autora dos livros juvenis "O menino que perdeu a magia" e "Um segredo de Natal", pela Editora Estronho, e de diversos contos de horror, tudo sob o nome Celly Borges. Gosta de ler sobre a II Guerra Mundial, de colecionar livros e falar sobre eles. Gosta de costurar nas horas vagas. É mãe do gato Anakin.

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