Matilda, de Roald Dahl

Uma menina de cinco anos que já leu muitos dos maiores clássicos é possível?

Pois ela existe e foi criada por um dos grandes autores de literatura infantojuvenil, Roald Dahl (1916-1990) – que escreveu também as obras A Fantástica Fábrica de Chocolate, Charlie e O Grande Elevador De Vidro, Os Minpins, entre muitos outros –, afinal, todos os personagens estão vivos!

Matilda (Editora Martins Fontes, 255 páginas) era essa grande leitora, calma e com pais que a desprezavam. Sempre ficava sozinha em casa, aprendeu a ler logo cedo.

“Aos três anos, Matilda já tinha aprendido a ler, sozinha, observando os jornais e revistas que encontrava pela casa. Com quatro anos já conseguia ler rápida e corretamente e começou, naturalmente, a se interessar avidamente por livros”.

Mas como não tinha nenhum em casa, e os pais se recusavam a gastar dinheiro com algo desnecessário, numa das tardes em que a mãe foi para o bingo, o pai para seu negócio escuso de venda de carros e o irmão simplesmente saiu, Matilda resolveu ir à biblioteca. A atendente, senhora Felps, estranhou a pequena menina ir sozinha, mas a ajudou. E em pouco tempo Matilda havia lido todos os livros da seção infantil. Então a atendente apresentou outros títulos, vários clássicos. E, apesar de não entender tudo o que lia, pois algumas palavras ainda não estavam em seu vocabulário, leu grandes clássicos, como:

Oliver Twist, de Charles Dickens
Orgulho e preconceito, de Jane Austen
O velho e o mar, de Ernest Hemingway
A revolução dos bichos, de George Orwell

Este é um livro para adultos e crianças, sem a visão de que elas não podem ler certas passagens, ou ter medo, medir palavras. Crianças são muito inteligentes e Roald Dahl era um autor que sabia muito bem disso.

Quando Matilda enfim vai para a escola, encontra a querida professora, Srta. Mel e a odiosa diretora, Sra. Taurino, que pega as crianças pelas tranças ou pelas orelhas e as arremessa pela janela. Mas os leitores sabem que é tudo uma brincadeira, é uma história e tem que ser levada assim, pequenos e grandes têm que aprender que literatura infantojuvenil não é se limitar a escrever textos fofos e sem conteúdo. Neste há a questão social, dos pais que não cuidam da menina, a deixam sozinha enquanto saem para seus afazeres, geralmente nada bons, não se importam com sua educação, em suas vidas os livros são dispensáveis, o que importa mesmo é a televisão, todos devem se reunir em frente ao aparelho para jantar, esse é o sagrado momento da família.

Matilda lia e muito, tinha conhecimento, todas as crianças têm curiosidade, vontade de aprender a ler e escrever. A menina da história pode ser um exagero, mas exageros são ótimos em literatura, a liberdade do autor de fazer uma criança de cinco anos ler Hemingway, Orwell e Dickens e gostar é sensacional, quantos adultos já leram esses autores?

O livro foi adaptado para o cinema em 1996, dirigido por Danny DeVito, que também atuou como pai da protagonista. E preciso dizer que sou tão fã dessa história que, quando pequena – antes de saber da existência do livro –, tinha um pôster do filme em meu quarto.

Matilda é uma leitura rápida, com muitas ilustrações bacanas em preto e branco, assinadas por Quentin Blake, que enriquecem o texto, e também há várias citações de livros e autores. Divirta-se com esta bela criação de Roald Dahl. Leia e se encante com essa menina leitora.

 

Heidi Gisele Borges

É revisora, autora dos livros juvenis "O menino que perdeu a magia" e "Um segredo de Natal", pela Editora Estronho, e de diversos contos de horror, tudo sob o nome Celly Borges. Gosta de ler sobre a II Guerra Mundial, de colecionar livros e falar sobre eles. Gosta de costurar nas horas vagas. É mãe do gato Anakin.

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