Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende

Conheci Michael Ende através de sua incrível obra A história sem fim. Lembro quando peguei emprestado na biblioteca e se tornou o meu livro favorito entre todos. Depois disso nunca quis parar de ler as obras desse autor fantástico.

A primeira vez que li Momo a tradução do título era Manu, a menina que sabia ouvir, o subtítulo tem razão de ser, lançado na coleção do extinto Círculo do Livro. O título brasileiro apresentado pela editora WMF Martins Fontes é Momo e o Senhor do Tempo ou A extraordinária história dos ladrões de tempo e da criança que trouxe de volta às pessoas o tempo roubado: um conto-romance, e é sensacional! Mas encontramos a descrição completa na folha de rosto e na ficha catalográfica. Detalhes quase escondidos em livros são bem divertidos!

Momo foi publicado pela primeira vez em 1973, em alemão. É a história de uma menina que mora sozinha numas ruínas e é incrível como não há problemas nisso! As pessoas perguntam se ela quer ir para algum lugar, mas ela conta que viveu num orfanato e era um lugar ruim. Então aceitam que ela fique ali, mas, como são todas pessoas muito boas, arrumam o cantinho perfeito para que Momo possa morar com certo conforto. E, aos poucos, ela vai mudando a vida de todos.

Foi uma festa alegre, daquelas que só as pessoas simples são capazes de apreciar.

A delicadeza das palavras, de cada frase, mostra que certamente Michael Ende era uma pessoa que sabia ouvir e, da mesma forma, devia ser fantástico ouvi-lo.

Há algum tempo fui na casa do meu avô – hoje já falecido – e ficamos sozinhos na salinha e ele me contou várias histórias de quando era moço. No final, ele me disse que era bom ter tido aquela conversa, pois as pessoas já não querem ouvir o que os mais velhos têm a dizer. Eu me senti um pouco Momo, afinal o que Momo sabia fazer melhor do que ninguém era ouvir.

Momo é bastante visual. E é o livro para ser lido aos poucos, sem nenhuma pressa, para saborear cada capítulo.

Enquanto todos vivem suas vidas felizes, algo avança sobre a paz do lugar. Os homens cinzentos chegam… São pessoas que não se importam com ninguém, apenas com seus ganhos.

Já não há a preocupação de que as casas sejam adequadas às pessoas que moram nelas, para isso seria necessário construir muitas casas diferentes umas das outras, então é mais barato e rápido construir todas iguais.

Ninguém queria admitir que sua vida estava se tornando cada vez mais pobre, mais monótona, mais fria. Quem mais sentia isso eram as crianças, pois ninguém tinha mais tempo para elas.

As pessoas foram se esquecendo do que importa. Perdem tempo buscando tempo e se distanciam cada vez mais delas mesmas e dos seus queridos.

Imagine algo como acontece hoje, quando a maioria das crianças já não sabe mais brincar, porque seus pais não têm tempo para ensinar e as largam em frente à TV, computador, celular etc. Esse é um dos motivos de Momo ser bastante atual.

Não apenas pelo fato de não haver segurança – falando especificamente do Brasil ­–, o motivo de as crianças não se reunirem nas ruas para brincar de bicicleta, esconde-esconde… é porque a maioria dos adultos já não tem tempo de cuidar dos filhos, como há alguns anos quando se reuniam em frente às casas enquanto as crianças se divertem à tarde, depois da escola – foi um tempo bom.

Os homens cinzentos fazem as pessoas acreditarem que deixar tudo de lado faz com que tenham mais tempo, e isso se reflete nas crianças, que se sentem abandonadas e precisam ser compradas com brinquedos caros e de última geração, mas eles se esquecem da inteligência das crianças.

As crianças traziam todo tipo de brinquedos, com os quais não dava para brincar de verdade. Era o caso, por exemplo, de um tanque com controle remoto, que andava sozinho, mas não fazia mais nada além disso.

A menina Momo é um grande exemplo do que falta no mundo há muito tempo: pessoas que tenham tempo para as outras.

Em algum momento um homem cinzento se vê num dilema enquanto tenta corromper Momo, a menina que o ouve. O homem fala tudo o que não pode, mas que desejava.

Então, por esse deslize do colega, todos os homens cinzentos precisam dar um jeito nessa estranha criança. E eis que surge a tartaruga Cassiopeia, que tem todo o tempo necessário para o sábio.

Infelizmente, porém, existem alguns corações cegos e surdos, que nada percebem, apesar de baterem.

As pessoas preferem acreditar em quem lhes dá medo.

Interessante como Momo se mostra diferente quando está com Mestre Hora, lá na Casa de Lugar Nenhum, o Beco do Nunca (o nome do site saiu daí!). Ali ela é uma menina curiosa. Diferente da criança sabia que ouve as pessoas.

Momo recebeu o Prêmio de Literatura Juvenil Alemã e o Prêmio Europeu de Livros para a Juventude. Michel Ende estudou na Waldorf School e desertou ao ser convocado para o serviço militar em 1945, aos 16 anos. Nasceu em Garmisch-Partenkirchen, Alemanha, em 12 de novembro de 1929. Viveu no interior da Itália, numa casa chamada Casa do Unicórnio, em meio a um jardim repleto de oliveiras. Por problemas financeiros, Ende não fez faculdade.

Publicou seu primeiro livro, Jim Knopf e Lucas, o maquinista em 1960. Segundo uma pesquisa realizada em diversos países e divulgada pelo Instituto Goethe, o livro alemão preferido pelos leitores em todo o mundo é A história sem fim (Die unendliche Geschichte, 1979). As obras do autor já foram traduzidas para mais de 40 línguas.

Infelizmente Michael Ende nos deixou em 28 de agosto de 1995, vítima de um câncer no estômago. Mas suas histórias sobrevivem e ainda podemos sonhar.

Ende disse:

É para esta criança em mim, e em todos nós, que eu conto minhas histórias.

Compre Momo e o Senhor do Tempo, com a versão da capa que traz a tartaruga Cassiopeia com Momo escrito em suas costas.

Essa resenha foi publicada no jornal Em Foco.

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